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17/11/2007 17:39
...e os mascotes tupiniquins abanam suas caudas
A atitude do rei espanhol que mandou Hugo Chavez calar a boca, provocou nos nossos colunistas da direita tupiniquins uma onda de chiliques, que resultaram em uma série de bobagens escritas e faladas.
Publicado no Jornal de Debates (www.jornaldedebates.ig.com.br) em 17/11/2007.
Pois não é que o rei da Espanha "por las gracias de Dios" brindou a direita brasileira encastelada na grande imprensa com um espetáculo de "cala-boca"? Mesmo sendo o rei espanhol, herdeiro de uma casa real decadente e que só existe de enfeite, e de uma ditadura franquista moribunda - e é bom lembrar que Franco foi caudilho de Espanha também "por las gracias de Dios" - ele conseguiu posar de democrata e assim agradar nossos pitbuls e lulófobos, que abanaram suas caudas de alegria e tudo fizeram através de seus blogs e "colunas" para agradar os seus patrões anti-chavistas. O espetáculo é patético; não a cena que envolveu o rei espanhol e o presidente venezuelano, mas o espetáculo proporcionado, por entre outros, Arnaldo Jabor, que tem se saído muito bem como ideólogo do anti-chavismo. É só lembrar o caminhão de bobagens que proferiu no "Jornal da Globo", quando se referiu inclusive às flatulências do "caudilho" venezuelano. Afinal, o que há por trás de um pretenso anti-chavismo é um (às vezes) inconfessável anti-lulismo, que se manifesta muitas vezes de forma sutil e hipócrita. Certamente, o presidente Lula não pode estar isento de críticas, mas também é verdade que uma crítica competente à Lula e ao PT, enfim, "ao governo que aí está" (para usar uma frase tão ao gosto do tucanato) , não pode ser feita pela tal oposição, e muito menos pela imprensa reacionária e rabugenta que sempre aplaudiu nossos caudilhos caboclos, e engraxaram suas botas com a desculpa esfarrapada da censura à imprensa. Censura houve sim, mas não contra esses empresários da mídia que alimentaram o estado autoritário e dele se serviram, e de certa forma se servem até hoje, mesmo sendo o estado "democrático". E esses pretensos lulófobos ou anti-chavistas não têm competência, e principalmente moral para tecer críticas capazes de atingir a inegável popularidade desses atuais estadistas latino-americanos, mesmo sendo todos eles - Lula, Chavez, Morales - merecedores de críticas. E como nossos pet-shop´s tupiniquins não têm competência para produzir essas críticas, o jeito é se valer da atitude arrogante do rei da Espanha. O rei conseguiu encher de alegria as salas de visitas das familia Civita, Marinho, Mesquita, onde o ódio à Chavez e o desprezo ao "sapo barbudo" cultivado pelos seus mascotes, deixam seus senhores contentes a ponto de esfregarem as mãos, e quem sabe até melhorar a qualidade das papinhas oferecidas, relembrando uma metáfora que tomo emprestado de Gilberto Maringoni, no seu magistral texto "Che Guevara e os mimos da família Civita", e que mais uma vez cabe como uma luva para entender as posturas desses "colunistas", "articulistas", "comentaristas", na verdade apenas cumpridores de ordens de uma fidelidade canina.
enviada por Professor Moacir
17/10/2007 10:49
As veias abertas, segundo Che Guevara
De Che, para sua filha: "tenha a capacidade de sentir o problema de alguém que lhe está próximo, de alguém que sente as injustiças(...) são as qualidades mais lindas de um revolucionário".
Publicado no Jornal de Debates (www.jornaldedebates.ig.com.br) em 13/10/2007
Ernesto Guevara de la Serna, filho de revolucionária, argentino de nascimento, latino-americano por convicção depois de descobrir na luta e nas viajens as veias abertas da América Latina, foi o maior cidadão latino-americano da história. Isto já bastaria para incomodar tanto as classes dominantes desse continente, mas certamente isto anima ainda hoje os sonhos de uma América liberta. Che Guevara afirmou, em uma de suas últimas cartas a seu pai, quando já não estava mais em Cuba, "que muitos dirão que sou um aventureiro, só que de um tipo diferente, dos que arriscam a pele para defender suas verdades..." (Meu amigo Che - Ricardo Rojo). Em outra carta, no mesmo período, dirigida a uma de suas filhas afirmou: "tenha a capacidade de sentir o problema de alguém que lhe está próximo, de alguém que sente as injustiças(...) são as qualidades mais lindas de um revolucionário"(idem).
Pode-se restropectivamente, "analisar", "discutir", "ponderar" sobre a epopéia do médico argentino, revolucionário cubano e cidadão latino-americano, tranqüilamente nos bancos acadêmicos e até em mesa de bar ao ar livre. Afinal, são quarenta anos distante dos acontecimentos, e por isso mesmo, poderíamos fazer uma análise de plena isenção. Mas...Che Guevara incomoda, e como! Certamente o incômodo não é causado pelo seu legado teórico, pois embora Che escrevesse vários textos sobre o socialismo cubano e a sua visão da perspectiva socialista, o Che que incomoda é o ativista revolucionário, que percorreu a América Latina "de mambo a tango", isto é da América temperada do Chile, Argentina, Uruguai à América tropical e "caliente" do Brasil, Caribe, México, passando pela América Central insular, onde decidiu engajar-se na saga dos cubanos, depois da frustrada tentativa de alijar do poder, o governo ditatoral da Guatemala.O Che Guevara que incomoda é na verdade uma pedra no sapato dos interesses ianques, que buscam uma "integração" das Américas, para transformar o continente no mesmo quintal da periferia norte-americana, onde seus branquelos poderão fazer turismo à vontade, onde seus negócios não sofram nenhum entrave fronteiriço, onde o leite e o mel jorram...direto para a terra de Tio Sam. E aqui, realmente Che Guevara incomoda muito mais, pois a integração que ele anima é a dos povos, com suas diferenças, com seus sonhos, mas com sua essência de vítima da exploração do trabalho, da dilapidação dos recursos naturais e da opressão operada pelos lacaios do "grande irmão", principalmente a partir dos anos 50, e que culminou com o golpe militar no Brasil. Nada mais distante do sonho de Che, das quimeras chamadas Alca, Mercosul, Pacto Andino...pois esses blocos são apenas junção dos mercados para livre circulação de mercadorias, pessoas, finanças, etc, mas com a exclusão da imensa maioria da população, que não raro nem sabem que são de fato, latino-americanos. Guevara defendia e lutou enquanto pôde, por uma outra integração, buscava a consciência de latino-americanidade. E nisto, a identificação do Che com as experiências atuais de alguns países cujos governos buscam efetivamente um maior vinculo com os problemas sociais, como são os casos do Brasil, Venezuela, Nicarágua e outros, é evidente. Pois é este o Che que incomoda...
Sabemos que seus métodos de luta revolucionária (a ação armada) podem ser questionados nestes tempos de "globalização", do "fim da história", do "triunfo definitivo do capitalismo" (sic). E mais: é correto dizer que a sua "teoria do foco" foi um lamentável equívoco, pois quando em nome dela, o jornalista argentino Jorge Masetti foi lutar na selva argentina para ali implantar o foco guerrilheiro, e quase dois anos depois, Che Guevara em pessoa foi fazer o mesmo na selva boliviana, os resultados que colheram foram dramaticamente os mesmos. Mas isto não quer dizer que o projeto revolucionário, de que Cuba foi o exemplo vitorioso, seja encarado como inviável. É muita leviandade pretender apagar a experiência histórica (como fez a revista Veja, de forma vil e nojenta!), como se isso fosse suficiente para livrar essa geração do mito Che. Atacando em todas as frentes com seus fucinhos rabugentos, a direita brasileira e latino-americana publicou através dos seus meios de mídia e revistas semanais algumas pérolas sobre o fracasso de Che, sobre o fracasso da experiência cubana, tentando inclusive fazer uma prestigitação da imagem do médico argentino, transformando-o num "ser desprezível". Aliás, nem quero deter-me na matéria publicada pela revista Veja, pois o artigo de Gilberto Maringoni: "Che Guevara e os mimos da família Civita", publicado na Agência Carta Maior, é simplesmente sensacional, pois reconheceu de forma definitiva o status dos mascotes da "famiglia", e eu não faria melhor.
O que é importante é relembrar que Che Guevara foi um revolucionário engajado na luta dos cubanos, e fez isso não como argentino que colaborou com Cuba, mas como latino-americano que lutou pela emancipação do nosso continente. Por mais que se condene seus métodos de ação, seu mérito maior foi o de sentir na pele os problemas latino-americanos, de compreender as reais necessidades das comunidades indígenas em todas as plagas de América, e a partir disso, decidir que seria mais útil como revolucionário do que como médico de província. No fundo, até os inimigos de Che reconhecem isso.
enviada por Professor Moacir
19/08/2007 18:29
Melhor começar a não ler o Estadão
Publicado em www.jornaldedebates.com.br em 19/08/2007
A campanha publicitária, destinada a vender a "credibilidade" do jornal "O Estado de São Paulo", só mostra uma coisa: o medo patético que o jornal e a grande imprensa, tem do contraditório.
Autor: Moacir Teles Maracci - Participa desde: 28/01/2007
A campanha publicitária, que segundo João Livi, busca vender a "credibilidade" do jornal "O Estado de São Paulo", só mostra uma coisa: o medo patético que esse jornal, e demais publicações da chamada grande imprensa tem do contraditório. Afinal, o ambiente dos blogs rompe de vez com a comodidade desfrutada pelos grandes jornais e revistas semanais, comodidade oferecida pela chamada seção "carta dos leitores", onde supostamente, qualquer pessoa poderia escrever, concordando, discordando do teor das matérias veiculadas. Na prática, porém (e a revista VEJA é o mais triste exemplo), o que se vê é a seleção rigorosa das missivas dos leitores, com a desculpa esfarrapada da "falta de espaço". Não só as cartas são editadas (o que é correto, sem dúvida), mas selecionadas mediante critérios nem sempre explícitos, mas muito perceptíveis por um observador atento, que vê, antes de qualquer coisa, a preferência e os interesses das grandes empresas de comunicação. O ambiente blogueiro oferece, pela primeira vez na história, a possibilidade dos leitores relacionarem-se com as publicações não apenas como meros leitores, mas como críticos das matérias veiculadas. O famigerado escândalo do dossiê da última eleição presidencial, e principalmente, a cobertura jornalística da tragédia de Congonhas, deveria servir de lição aos empresários da mídia, de que já não é tão tranqüilo vender a informação junto com a opinião, na espectativa de empurrá-la "goela abaixo". Parece que os leitores estão seguindo o sábio conselho de Paulo Henrique Amorin: "não coma gato por lebre" (sugiro a visita ao sítio "Conversa Afiada"). Em outros termos, o ambiente blogueiro e das publicações alternativas está tendo o saudável efeito de transformar o leitor-consumidor em leitor-cidadão, crítico, com capacidade dele, leitor, interferir no engendramento da chamada opinião pública. E, de quebra, revela a natureza hipócrita (em sua grande maioria) das seções "carta dos leitores", que os grandes veículos de comunicação impressa se esmeram em manter, fazendo leitores acreditarem na sua credibilidade, "pluralidade de opiniões", "direito de resposta" e outras quimeras. O único veículo midiático aparentemente a salvo do ferrão crítico que pode aparecer nos blogs e publicações alternativas ainda é a televisão, devido ao monopólio privado exercido pelos barões da mídia, Rede Globo à frente. Mas, as pesquisas recentes já revelam a perda de credibilidade também desses veículos, conforme se pode apurar das leituras de Carta Maior, do blog de Luiz Nassif e o "Conversa Afiada" de Paulo Henrique Amorin. Os blogs estão aí para ficar, com a condição para os blogueiros serem competentes e transparentes, porque, do contrário estarão condenados à perda de credibilidade junto aos internautas em uma velocidade verdadeiramente netiana. Resta aconselhar uma contra-campanha à campanha do Estadão, cujo título é o que esta à epígrafe para o chamamento deste artigo. E não é difícil. Acreditar na negativa de João Livi, o criador da campanha do Estadão (que não quis dizer o que acabou dizendo!) é o mesmo que acreditar que "Lula assassinou 200 pessoas em Congonhas". Em tempos não muito remotos, uma manchete dessas teria alavancado um golpe. A chamada grande imprensa terá de aprender a conviver com o contraditório, o que significa admitir que o seu poder de transformar suas opiniões em "opinião pública" tem limites, que são impostos justamente pelos leitores que já não são passivos. Esse "Jornal de Debates" representa muito bem um ambiente opinativo que os barões da mídia precisam aprender a usar.
enviada por Professor Moacir
13/08/2007 00:15
Reconstruir a agenda da esquerda
Publicado em www.jornaldedebates.ig.com.br em 10/08/2007
Ser de esquerda no Brasil de hoje é ser solidário a toda ação que tem por objetivo a promoção do indivíduo integral, a promoção da justiça social, do cidadão pleno de direitos e deveres.
No Brasil, diversos partidos se consideram, ou são considerados de esquerda. Partidos históricos como o PCB (atual PPS) e o PC do B, recolheram em maior ou menor grau as experiências e lutas da esquerda em todo o mundo, Eram tempos convulsionados, de entre-guerras e da Grande Depressão de 1929, quando a idéia de social-democracia não vingou em sociedades com pouca tradição democrática como a Alemanha, a Itália, Portugal, Espanha. Vingou a experiência terrível dos regimes totalitários, cujas consequências todos conhecemos. Vingou também a não menos terrível experiência do estado centralizado, da União Soviética e seus países satélites até 1989. E os agrupamentos de esquerda no Brasil (incluindo os PC"s e as "tendências"), em maior ou menor grau são herdeiros dessa vertente do estado centralizado, que alguns teóricos reconhecem como marxista-leninista (expressão cunhada por Stálin). Essa vertente foi disseminada em todo o planeta por meio da III Internacional, e animou processos revolucionários em diversas comarcas na periferia do capitalismo, desde Cuba e Nicarágua (um pouco menos), até Angola, Moçambique, Coréia do Norte, Vietnã. Vendo a realidade desses países citados, o que mais se vê é a anulação da iniciativa individual, não necessariamente no plano capitalista-empresarial, mas no plano maior do indivíduo integral, sonho belíssimo que percebi no não menos belíssimo ensaio de Roberto Freire neste "Jornal de Debates" (vale a pena ler). Isso sem contar as penosas condições de vida que vemos principalmente em Angola e Moçambique. Mesmo considerando que houve inegáveis pontos positivos nas experiências vividas no âmbito da III Internacional, penso que devemos renunciar à sua herança e buscar novos caminhos, sob pena de que o que entendemos como "ser esquerda" não caia no ridículo. Ainda no ínicio dos anos oitenta, Marshal Berman respondeu a uma crítica de Perry Anderson ao seu clássico "Tudo que é sólido, desmancha no ar", com uma frase antológica: "É fácil ler ´O Capital´, mas precisamos ver os sinais das ruas". No Brasil, considero que dois partidos políticos tidos como pertencentes ao campo da esquerda, de fato renunciaram à herança da III Internacional: o Partido dos Trabalhadores e o Partido Popular Socialista. (Não cheguei a conhecer documentos do Partido Socialista Brasileiro, mas acredito que também o PSB fez essa renúncia). Não se trata de dizer que "estamos em novos tempos" (a novidade pela novidade), mas enfatizar que o legado da III Internacional causou sacrifícios a milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive no Brasil, bastando lembrar o período heróico da luta armada contra a ditadura nos anos sessenta e setenta.E esses dois partidos compreenderam isso muito bem., pelo menos em minha opinião, já que a discussão sobre isso é muito mais profunda.
O outro passo é perceber as reais necessidades do povo brasileiro, seus anseios e seus desejos, para estabelecer com ele, o povo brasileiro, um vínculo sólido capaz de transformar um projeto transformador em algo exeqüível. Reconhecer os movimentos sociais de todos os matizes, na cidade e no campo, na educação e na cultura, na ecologia, é condição sine qua non para que a esquerda possa ter assegurado seu lugar no expectro político. Penso ainda que "ser de esquerda" não é necessariamente estar "militando" em um partido político, até porque essa idéia de "militância" está ficando meio de lado, com a midiatização cada vez mais intensa das campanhas político-eleitorais. Entendo que os movimentos sociais necessariamente são "de esquerda" quando surgidos de forma autônoma nos grupos sociais que almejam defender interesses legítimos, quer individuais, quer sociais, econômicos, culturais... Nesse sentido, em minha modesta opinião, "ser de esquerda" é ser contra a "direita", mas não necessariamente; antes é ser a favor do que se deseja, do que se almeja com luta (seja qual for o campo ou o método de luta) . Assim, "ser de esquerda" no Brasil de hoje é ser solidário a toda ação que tem por objetivo a promoção do indivíduo integral, lembrando mais uma vez Roberto Freire, a promoção da justiça social, de uma concepção de cidadania que se baseie não apenas no rol de direitos/deveres, mas também no reconhecimento do direito dos indivíduos e coletividades em formular novos direitos/deveres. É com esses pressupostos que devemos pensar em uma nova agenda para a esquerda brasileira.
enviada por Professor Moacir
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